
por WALDIR BRITTO (DICA)
Em algumas escolas de Samba paulistanas os enredos já começaram a ser definidos, outras aguardam patrocínio. É obvio, que isso ocorre devido a crise econômica. Poucas escolas de samba se arriscam a montar seu carnaval somente com os cachês artísticos da prefeitura e outras verbas muitas vezes já comprometidas. Devido a isso estamos vivendo um fenômeno interessante, pois nos meses de junho em outras épocas muitas escolas já estariam com seus enredos definidos. Ao invés disso grande parte das escolas de samba ainda não definiu seus enredos pois há dependência de patrocinadores, elemento vital para iniciarem seus trabalhos.
Alguns compositores “já liberados para voar”, começam a baterem suas asas e estabelecer “n” estratégias de convencimento, seja dos jurados, das torcidas, da bateria e principalmente das diretorias para lograrem êxito em seus intentos. Quanto aos sambas de enredo nos dias de hoje, jamais podemos afirmar que a excelência da obra é fundamental para ganhar a disputa, dependem de inúmeros fatores, principalmente saber qual a melhor maneira de fazê-lo, pois ficam condicionados a inúmeros percalços.
Primeiro, pensar em compor um samba “livre”, voando nas asas da poesia, é uma temeridade pois os autores sabem que é muito difícil ir avante e emplacar suas obras nas disputas. Brigam com suas considerações pessoais e formação sambística, mas acabam sucumbindo à razão momentânea e passam para o segundo passo.
No segundo passo, acabam se adequando às imposições que não são poucas, umas oriundas dos donos da escola, outras das comissões de carnaval, diretorias, presidentes, carnavalescos, patrocinadores etc. que de uma forma ou de outra acabam adquirindo “direitos” sobre a obra dando seus pitacos, e assim acabam aprisionando a verve poética dos compositores.
Num terceiro passo, muitos vão montando seus quebra cabeças, tomando um cuidado enorme para não “infringir” normas pré-estabelecidas. Saem a cata de palavras, frases, rimas “mágicas” para montarem seus quebras-cabeças e nessa caminhada, muitas vezes perdem o fio da meada.
A migração cada vez maior dos compositores pelas escolas de samba vai tornando as obras similares. Em determinados momentos é possível cantar um samba enredo com outra melodia... Parece que tudo vai ficando igual, as rimas os versos e as melodias parecem se encaixar perfeitamente. E assim, vamos ficando cada vez mais escravos do passado, escravos daqueles sambas livres, poéticos, reais e sedutores. Sambas que desafiam nossa mente, tornando-se imorredouros. E muitas vezes, ouvimos que tudo isso é por conta da evolução, o samba cresceu...
È verdade também que outros fatores contribuem para que os sambas enredos tenham uma vida efêmera, como a pouca divulgação das obras, a distribuição caseira dos CDs, a rara veiculação nas emissoras de radio e televisão e por ai vai. Algumas vezes mudam-se os enredos, porem nada de novo é acrescentando. Seja na forma de fazer a letra, na melodia, alegoria, fantasia etc. parecem águas que correm para a cachoeira, buscando a queda inevitável. Dessa forma, muitas vezes acabamos fazendo a mesma leitura de desfiles passados. A nós pobres amantes dessa arte, resta esperar o inicio da estiagem...
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